quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Literatura e Barroco

O Barroco é um período artístico, no qual, historicamente, procede o Renascimento. O período anterior ao Renascimento é caracterizado principalmente pela Idade Média, e nela, havia uma intensa religiosidade cristã nas obras culturais. Já o Renascimento é marcado pelo antropocentrismo e resgate das culturas clássicas, nesse período as cidades-estado ganham maior importância comunicativa e tornam-se centros econômicos. Além disso, os primeiros países começam a surgir. O Seiscentismo é a união de ideologias desses dois períodos. É a mistura de ideias entre o sagrado e o profano.

Historicamente, o Barroco é uma resposta, também, ao movimento religioso que ocorria no século XVI, a Reforma.  Podemos dizer que esse movimento religioso é uma conseqüência dos abusos cometidos pela Igreja, sendo que muitos religiosos não aceitavam mais as imposições abusivas da Igreja, mas gostariam de continuar com os ensinamentos cristãos, rompendo, assim, com a Igreja Católica e criando novas igrejas cristãs. O principal expoente é Martinho Lutero. Ainda é dito que a Reforma foi possível graças à visão antropocêntrica proporcionada pelo Renascimento.   A Contrarreforma surgiu dentro da própria Igreja Católica com o intuito de diminuir a perda de fieis para outras religiões cristãs. A conseqüência desse último movimento religioso não foi apenas no cenário da fé. O Barroco é o fruto direto da Contrarreforma. A Igreja Católica tinha o objetivo de não perder mais fieis, então, proporcionou que os templos católicos fossem rebuscados de arte, assim, o fiel sentir-se-ia um grande pecador em comparação com a grandeza que era Deus. Entretanto, as idéias antropocêntricas já estavam implantadas no seio cultural e não conseguiriam ser ignoradas. Por isso, uma característica marcante desse período cultural é a luta entre o sagrado e o profano.

 O homem barroco almejava a santidade, mas, ao mesmo tempo queria desfrutar dos prazeres profanos. Essa é somente uma das interferências do Seiscentismo na arquitetura, literatura, música, pintura e escultura. Na Europa, o período barroco ocorreu entre o século XVI e XVIII. A América foi fortemente influenciada pela Contrarreforma, já que a catequese indígena tinha como objetivo alcançar mais fiéis para a Igreja Católica. O Novo Mundo já havia sido descoberto e os povos ameríndios eram alvo da Contrerreforma. Conseuqentemente o Barroco foi de muita expressão, ainda que mais  tardiamente se comparado à Europa, na América Latina. Isso se deve ao catolicismo ser muito forte nas coroas portuguesa e espanhola.

Aspectos diretos literários:

Antinomia homem-céu, homem-terra:

Segundo o Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa : “Antinomia: 1. Contradição entre duas leis ou princípios. 2. Oposição recíproca [...].” Essa característica barroca diz respeito ao conflito entre o homem santo e o pecador. Muitas das obras barrocas retratam as penitências causadas por remissão de pecados. O homem barroco tinha consciência de ser pecador. Pecava e posteriormente pedia perdão divino ao que havia feito. Isso era muito retratado na arte desse estilo cultural.

Visualização e plasticidade:

Visualmente, as pinturas, arquiteturas e esculturas barrocas possuem uma plasticidade muito rebuscada e extravagante. Tudo é engrandecido e prende a visão de quem vê devido ao excesso de detalhes e riqueza de metais preciosos. As obras são impecáveis e extremamente bem produzidas. Principalmente, para demonstrar a grandiosidade de divina. A mistura de cores claras e escuras acentua o conceito de conflito entre sagrado e profano.

Fugacidade:

A vida é fugaz, ou seja, passará e não seremos eternos. Então, deve-se viver intensamente e não desperdiçar os momentos prazerosos, porém, a vontade de almejar o paraíso após a morte faz com que o homem barroco viva a dúvida entre pecar e santificar. Carpe Diem é um conceito de viver intensamente a vida.

Luta entre o profano e o sagrado:

Essa é a principal característica barroca. Todos os outros aspectos acabam esbarrando nesse. A dúvida entre aproveitar os prazeres da carne e tornar-se um homem santo.

Elementos evanescentes:

A água e o vento são elementos evanescentes. Eles são muito presentes, principalmente nas pinturas barrocas. Essa característica é uma herança do Renascimento, já que esse último é regate da cultura Greco-romana clássica.


Metáforas e riqueza de imagens:

Como o homem barroco vive a contradição entre o sagrado e o profano, a literatura é repleta de metáforas e imagens literais. Há, também, o grande uso de figuras de linguagem como: antítese,  paradoxo e oximoros . Essas têm como objetivo demonstrar objetos que divergem, no caso do barroco, o sagrado e o profano.

Detalhismo:

As obras são muito detalhistas, tentam aproximar-se da perfeição divina. Isso é principalmente visto nas artes plásticas da época.

Malabarismo verbal:

Hipérbole e hipérbatos servem para rebuscar os textos escritos. A primeira tem o objetivo de intensificar exageradamente algo que já foi mencionado, e a segunda consiste na inversão de elementos de uma frase. É trazido para a literatura o rebuscamento das artes plásticas através dessa característica.

Análise de Gregório de Matos:

A JESUS CRISTO NOSSO SENHOR – Gregório de Matos

Pequei, Senhor; mas não por que hei pecado,
Da vossa alta clemência me despido:
Porque, quanto mais tenho delinqüido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado

Se basta a vos irar tanto pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado

Se uma ovelha perdida, e já cobrada
Glória tal e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na sacra história:

Eu sou, Senhor, ovelha desgarrada;
Cobrai-a ; e não queirais, pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.

Gregório de Matos era também conhecido como “Boca do inferno” devido às críticas que fazia à Igreja, sociedade e Coroa Real. A poesia lírica dele é dividida entre sátira e religiosa. Há autores que consideram a divisão da obra dele, também, em poesia lírico-amorosa, lírico-religiosa e lírico-filosófica. É conhecido pelas palavras de baixo calão e vocabulário pouco rebuscado em comparação às outras obras da época.


No poema “A Jesus Cristo Nosso Senhor”, Gregório de Matos utiliza a principal característica do Barroco: a luta interior entre o sagrado e o profano. O homem barroco deseja desfrutar dos prazeres da carne, porém, almeja receber um lugar ao céu. Gosta de desfrutar a vida efêmera terrestre, mas anseia pela vida eterna nos céus. O eu - lírico se vê como um pecador. Peca e não deseja parar com tal fato, mas gostaria de receber o perdão divino. Esse conceito pode ser visto no trecho: “Porque, quanto mais tenho delinqüido, Vos tenho a perdoar mais empenhado”. Nesses dois versos, vemos que o eu - poético pecou mais de uma vez e pede perdão. Parece que ele, mesmo querendo o perdão divino e tendo-o alcançado anteriormente, não parará de cometer pecados. É o que foi dito da luta entre o sagrado e o profano. Ainda, o conflito entre viver a vida efêmera e almejar um lugar ao céu após a morte.

A figura de linguagem mais utilizada, no poema, é a metáfora. É construída com base no evangelho de São Lucas, no qual, é dito que "há grande alegria nos céus quando um pecador se arrepende de seus pecados e dá meia volta". No caso desses versos, o eu – lírico dá meia volta e torna a pecar.
  


Nenhum comentário:

Postar um comentário