sábado, 14 de setembro de 2013

Caramuru e arcadismo

Caramuru é um poema épico escrito por Santa Rita Durão. Foi publicado em 1781. Estruturalmente, é composto por dez cantos. Esses são divididos em estrofes. A lírica é composta no formato ABABABCC, estrutura construída por Camões. As principais personagens são: Diogo Álvares Correia, herói e náufrago português; Paraguaçu, a índia pela qual o herói apaixona-se; e Moema, índia apaixonada por Diogo.  

O enredo gira em torno de Diogo Álvares Correia. Ele é um náufrago português que se torna prisioneiro de uma tribo antropofágica, juntamente com mais seis companheiros de viagem. A tribo Tupinambá, na qual está retido, é atacada por outra aldeia. Diogo aproveita a situação para vestir uma armadura que trazia na embarcação. Um índio chamado Gupeva espanta-se com o artefato, além disso, o náufrago incendeia uma candeia, assim, o indígena acredita que o português possui poderes com as mãos. Depois da guerra entre as aldeias terminada, Gupeva e Diogo vão à caça de animais. O europeu utiliza uma arma de fogo. Isso espanta e amedronta os povos ameríndios. Eles crêem que o homem branco é o filho do deus trovão. Assim, é chamado de Caramuru. Paraguaçu é uma índia que está destinada a casar-se  com Gupeva, porém, ela apaixona-se por Diogo, que corresponde o sentimento dela. Um índio caeté, nomeado Jararaca, também era apaixonado pela índia. Reunido com outras tribos, ataca os Tupinambás. Diogo luta ferozmente ao lado de Paraguaçu, após salvá-la de um incidente durante a batalha, ela e outras índias são oferecidas como vínculo de parentesco indígena. Ele aceita-a. Salva uma tripulação espanhola também náufraga, e vai à Europa para casar-se com a índia. Quando o navio já partira, Moema, outra indígena também apaixonada por ele, nada e morre ao tentar alcançar o navio. Em terras européias, Paraguaçu é catequizada e recebe o nome de Catarina. Ao voltarem para o Brasil, ela prevê como será o futuro da nação, já que o enredo começa com a colonização brasileira e o poema é escrito cerca de 200 anos após essa data. O eu - lírico retrata as belezas naturais brasileiras, os hábitos indígenas e como era a visão do homem europeu sobre isso.

O poema pertence à escola literária do Arcadismo.  Nessa época, as principais características eram: bucolismo,  valorização da natureza, elementos da cultura Greco-romana e abordagens através de linguagens mais simples.  Na obra de Santa Rita Durão, as mais presentes são as seguintes:

Constantemente faz referências aos valores da cultura clássica Greco-romana, como podemos ver em:
“Barbárie foi (se crê) da antiga idade
A própria prole devorar nascida;
Desde que essa cruel voracidade
Fora ao velho Saturno atribuída:
Fingimento por fim, mas é em verdade
Invenção do diabólico homicida,
Que uns cá se matam, e outros lá se comem:
Tanto aborrece aquela fúria ao homem.”

Saturno, na mitologia romana, é o deus do tempo. A lenda sobre essa divindade diz que ele comia própria prole para que um deles não se tornasse o deus dos deuses. O eu-lírico faz essa referência devida à antropofagia indígena.

A valorização da natureza é vista através da descrição das maravilhas naturais brasileiras.
“Nas comestíveis ervas é louvada
O Quiabo, o Jiló, os Maxixeres,
A Maniçoba peitoral prezada,
A Taioba agradável nos comeres:
O palmito de folha delicada,
E outras mil ervas, que se usar quiseres,
Acharás na opulenta natureza
Sempre com mimo preparada a mesa.”

A linguagem é simples, principalmente, se compararmos à escola literária anterior, o Barroco, a qual pregava o rebuscamento das palavras. Aspectos específicos da literatura árcade são:  Inutilia truncat, Fugere urbem, Carpe diem, Locus amoenus, Aurea mediocritas. A primeira diz respeito à retirada de excessos da escrita. A segunda sobre a fuga da cidade. Na maioria das obras, essa fuga é feita para o cenário campestre, porém, em Caramuru ocorre para o ambiente indígena. Durante o arcadismo, há a ideia da fugacidade do tempo, logo se procurava viver de forma mais simples, esse é o carpe diem. Na obra em questão, a simplicidade indígena. Isso pode ser visto no trecho:
Acesa luz na lôbrega caverna,
Vê-se o que Diogo ali da nau levara;
Roupas, armas, e, em parte mais interna,
A pólvora em barris, que transportara,
Tudo vão vendo à luz de uma lanterna,
Sem que o apeteça a gente nada avara,
Ouro, e prata, que a inveja não lhe atiça:
Naçao feliz! que ignora o que é cobiça.”

Já o Locus amoenus é o conceito das imagens pastoris estabelecidas por essa escola literária. No caso de Caramuru, o “lugar ameno” pode ser o Brasil recém descoberto. Já a Aurea mediocritas é a construção de um herói que não seja monarca. O que ocorre no caso do viajante Diogo Álvares Correia.

Já o contexto social do Arcadismo ocorre durante a erupção de ideias iluministas. É uma crítica à nobreza e o clero, que foram os principais expoentes de incentivo e moldes artísticos para o Barroco. O nome vem de Arcádia, região Grega pastoril. A simplicidade campestre se contrapõe ao extravagante e rebuscado estilo barroco. Uma característica proposta pelo iluminista Jean Jaques Rousseau é a do “bom selvagem”. Santa Rita Durão quis passar essa visão de Brasil recém descoberto. Também, mostrou que os índios como eram “bons selvagens”, poderiam ser transformados em “homens brancos”, como o que ocorre com Paraguaçu ao casar-se com Diogo e ter costumes europeus. Até muda o nome para Catarina. O Iluminismo prega a racionalidade. Ele tinha como objetivo retirar as ideias medievais trazidas pela sociedade e retornar à razão. Assim como na era Clássica Grega. Por isso, o movimento cultural resultante é chamado também de neoclássico. Santa Rita Durão demonstra como o índio pode ser racionalizado através da intervenção européia.

Referência Bibliográfica
DURÃO, Santa Rita. Caramuru: Poema épico. São Paulo: Martin Claret, 2003.

PATRIOTA, Margarida. Explicando a literatura no Brasil. São Paulo: Nova Fronteira, 2012.

Nenhum comentário:

Postar um comentário